20 de out de 2012

[Conto] PEDRO LUSO - A Testemunha Ética



  
                                         [ESPAÇO DO CONTO]

                                      
                                                    A TESTEMUNHA ÉTICA
                                               (por Pedro Luso de Carvalho)



          O ADVOGADO AGUARDA o cliente, que havia marcado consulta para aquela hora da tarde.

É possível que não venha, com toda essa chuva, pensou.

Logo a companhia do interfone toca. A secretária avisa que vai conduzir o cliente à sua sala.

A secretária abre a porta da sala com delicadeza, entra com o estranho e indica-lhe uma poltrona, postada em frente à mesa espaçosa. Depois, deixa a sala, onde ficam sós advogado e cliente, frente a frente. Atento, o advogado nota que a chuva havia respingado água no seu elegante paletó. O homem diz logo que precisa dos serviços do advogado.

O senhor veio por indicação de alguém?

Não. Como não conheço nenhum advogado de sua área, fiz uma pesquisa no Google.

Pois bem, então vamos ao assunto, pontifica o causídico.

Daí em diante o homem passa a narrar os fatos que aconteceram entre ele e um dos seus inquilinos.

Quanto aos aluguéis, não tenho queixa dele, pois paga sempre com pontualidade.

E então passa a dizer qual a sua pretensão.

Ontem, depois que me recusei a mandar fazer reparos, por infiltração de água, no apartamento que lhe aluguei, ele passou a ofender a minha honra na frente de vários moradores do edifício, afirma com indignação.
 
O advogado mantém-se atento ao que lhe narra o homem.

E mais, doutor, por pouco não me agrediu fisicamente.

Então, pelo visto, o senhor quer ajuizar uma ação de indenização, por dano moral, contra o seu inquilino? – pergunta o advogado.

É justamente essa a minha intenção, pois acho que ele deve pagar pelo que fez, denegrindo o meu bom nome.

Ciente da intenção do homem, o advogado passa a dar-lhe explicações jurídicas sobre a necessidade de produzir prova no tocante ao fato, sem a qual a ação não poderá prosperar.

O senhor já falou com algumas dessas pessoas, que presenciaram o fato, para prestar testemunho a seu favor?

Todas elas se recusaram, responde o homem.

Nesse caso, nada podemos fazer sem prova, afirma o advogado. E então dá por encerrada a consulta.

O homem, no entanto, não desiste de seu intento, e diz que antes de vir à consulta já havia conseguido uma testemunha.

  Pode ficar tranquilo, doutor, conheço há anos a pessoa que vai ser minha testemunha; por isso, sei que ela não vai me trair.

O senhor pode explicar melhor, pergunta o advogado.

É o que lhe disse, o meu amigo é uma pessoa ética.

Pessoa ética?

  –Exatamente, ele vai dizer tudo o que o senhor quiser que diga ao juiz, a meu favor.

O advogado então chama sua secretária e faz a ela um pedido definitivo:

 – Por favor, mostre a este senhor a porta de saída.



*  *  *

              

6 comentários:

Tais Luso disse...

Pedro:

As piadinhas sobre advogado, que ouvimos, certamente deixam alguns desconfortáveis. Porém, pouco se fala dos clientes que escondem os seus 'trambiques' dos advogados, na tentativa de ficarem impunes através da procurada 'defesa'. Então pegam a vizinha, o amigão de infância, o companheiro de trabalho que se prestam para 'safar' o amigo do ilícito que praticou.

E quando um dos cônjuges – que ao se separar - faz trapaças para dificultar a vida do ex-cônjuge na visita ao filho? E os que fazem questão de deixar o ex-parceiro na maior penúria? Isso está cheio, Santo Deus!

A moda agora é 'dano moral'. Abriu a boca, fez cara feia... dano moral na criatura! Fica fácil ganhar dinheiro assim. Mas existem clientes e clientes! Como tudo, é preciso separar o joio do trigo. E esse advogado, de tua crônica, mostrou realmente, quem teve ética.

Bela crônica!
Beijinhos!!

Pedro Luso disse...

Taisinha,

Nisso tens toda razão, os advogados quase sempre levam a culpa quando defendem alguém que realmente comete atos ilegais contra a sociedade. Os seus clientes nem sempre contam toda a verdade, para assim poder "usar" esse profissional em seu escuso benefício.

Conheço muitos advogados que deixam de ajuizar ações em defesa dessas pessoas desonestas. Para eles a Ética vem em primeiro lugar.

Beijinhos,
Pedro.

anita sereno disse...

boa tarde, obrigada pela sua visita ao meu blog...
tem aqui um belo blog grata pela a mensagem que me deixou continuação de uma boa semana um abraço

Pedro Luso disse...

Obrigado pela visita, Anita, volte sempre.
Um bom final de domingo.

Abraços,
Pedro.

lis disse...

Muito bom Pedro
Em tempos atuais é motivo de orgulho ler algo assim, mesmo que seja ficção.rs
abraços e obrigada por clicar em 'seguir'

Pedro Luso disse...

Obrigado, Lis.

Você tem razão, trata-se de ficção, mas fui "inspirado" pelas reportagens da mídia sobre tanta gente desonesta que nos cercam.

Abraços,
Pedro.