8 de mar de 2011

GORE VIDAL / A Guerra, Errol Flynn e John Wayne

Gore Vidal





         
     Eu nasci oito anos depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Enquanto crescia, ficou a lembrança de que não tiramos nada daquela guerra na Europa, exceto um ataque à Carta de Direitos e Garantias dentro de casa e, claro, a nobre experiência da Lei Seca. Os jovens costumavam me perguntar, espantados, por que fomos tantos a nos alistar em 1943. Digo-lhes que, por termos sido atacados em Pearl Harbor, precisávamos defender nosso país. Mas devo observar que, enquanto em 1917 milhões de rapazes almejavam combater os bárbaros, nós não almejávamos. Éramos fatalistas. Nos três anos que passei no exército, não ouvi soldado algum expressar um sentimento patriótico; muito pelo contrário, quando víamos a cara de Errol Flynn na tela vencendo a guerra da liberdade, ou, pior ainda, John Wayne, que conhecíamos pelo nome verdadeiro de Marion, o arquétipo do ator que fugiu do alistamento militar e que, só para esfregar na cara, incorporou um Flying Tiger nos cinemas.  


                                                               (Gore Vidal - trecho de Sonhando a Guerra)



(N.T.) Flying Tiger – Alusão ao Grupo de Voluntários Americanos do general Claire Chennault, pilotos de caça que voaram na Segunda Guerra Mundial, de 1941 a julho de 1942.


In, VIDAL, Gore. Sonhando a Guerra. Prefácio de Luis Fernando Veríssimo. Trad. Ricardo Silveira. 2ª impressão. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2003, p. 97-98.



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