16 de fev de 2013

[Poesia] DRUMMOND – A mão suja



[PEDRO LUSO DE CARVALHO]


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE fez sua estreia em livro no ano de 1930, com Alguma poesia, Nessa obra, o poeta reuniu trabalhos que havia começado a produzir a partir de 1925. A crítica literária e o público leitor recebeu o livro (Alguma poesia) com forte reação, quer de elogios quer de contrariedade.

Em que pese pudesse ser notado na obra alguns modismos que eram advindos do modernismo, um fato não podia ser negado: ali se via um grande poeta, como poderia ser aquilatado nos livros que se seguiriam a este, como: Brejo das almas, 1934; Sentimento do mundo, 1940; A rosa do povo, 1945; Claro enigma, 1951. Tais obras dariam a Drummond a posição de o maior poeta moderno brasileiro.

Carlos Drummond de Andrade nasceu na cidade de Itabira, Minas Gerais, a 31 de outubro de 1902, e faleceu no Rio de Janeiro, a 17 de agosto de 1987.  
             
O poema A mão suja, de Drummond (In Carlos Drummond de Andrade. Antologia poética. 11ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1978, p. 12-14), é transcrito abaixo:



[ESPAÇO DA POESIA]


A MÃO SUJA
            ( Drummond)



Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos.

A princípio ocultava
no bolso da calça,
quem o saberia?
Gente me chamava
na ponta do gesto.
Eu seguia, duro.
A mão escondida
no corpo espalhava
seu escuro rastro.
E vi que era igual
usá-la ou guardá-la.
O nojo era um só.

Ai, quantas noites
no fundo da casa
lavei essa mão,
poli-a, escovei-a.
Cristal ou diamante,
por maior contraste.
quisera torná-la,
ou mesmo, por fim,
uma simples mão branca,
mão limpa de homem,
que se pode pegar
e levar à boca
ou prender à nossa
num desses momentos
em que dois se confessam
Sem dizer palavra...
A mão incurável
abre dedos sujos.

E era um sujo vil,
não sujo de terra,
sujo de carvão,
casca de ferida,
suor na camisa
de quem trabalhou.
Era um triste sujo
feito de doença
e de mortal desgosto
na pele enfarada.
Não era sujo preto
– o preto tão puro
numa coisa branca.
Era sujo pardo,
pardo, tardo, cardo.

Inútil reter
a ignóbil mão suja
posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!
Com o tempo, a esperança
e seus maquinismos,
outra mão virá
pura – transparente –
colar-se a meu braço.



 *  *  *


8 comentários:

Maria Luisa Adães disse...

Conheço bastante bem Drumond de Andrade e tenho a minha familia mais direta no Brasil, donde acabei de chegar.

Escrevo poesia e me baseio muito nos Mestres do Modernismo/ Brasil/ Futurismo/ Portugal.

Parabéns pela escolha!

Maria Luísa

"os7degraus"

Maria Luisa Adães disse...

C. Drumond de Andrade perdeu sua filha e sua musa, Julieta , cerca de três dias antes de morrer.
Que dor tamanha!

maria luísa

Obrigada por se tornar meu seguidor! E eu sua!

Pedro Luso disse...

É verdade, Maria Luísa, Drummond não teve forças e nem saúde para suportar a perda de sua querida filha.

Obrigado por estar seguindo meu blog (você sabe, já sou seu seguidor).

Abraços,
Pedro.

Pedro Luso disse...

Obrigado, Maria Luíza.

Em breve irei ao seu blog para conhecer suas poesias.
Volte sempre.

Abraços,
Pedro.

José Guimarães disse...

Olá Pedro

cheguei aqui vindo do blog dos Aposentados da Caixa.

Seu espaço online é bastante literário e nos agrada muito.

Parabéns e sucesso.

Arturo disse...

Pedro:
Lamento no hablar en portugués, pues me impide gustar a pleno la poesía, con sus sutilezas.
Sin embargo, me alcanza la comprensión como para comprender el drama profundo que muestra el poema.
Un gran abrazo.

Pedro Luso disse...

Obrigado, José.

Espero que volte mais vezes a este espaço.

Um abraço,
Pedro.

Pedro Luso disse...

Arturo:
Drummond é um dos nossos melhores poetas.
Com uma atenta leitura, como você deve ter feito, fica mais fácil compreender a mensagem do poeta. (Nós, daqui do Rio Grande do Sul, temos certa facilidade com o "portunhol".)
Grande abraço.