7 de out de 2013

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30 de set de 2013

[Crônica] ANTÔNIO MARIA – Ninguém me ama I

  
-  PEDRO LUSO DE CARVALHO

ANTÔNIO MARIA (Antônio Maria Araújo de Morais) nasceu em Recife a 17 de março de 1921. Maria, como era tratado pelos íntimos, escrevia crônicas diárias no O Jornal – onde permaneceu por 15 anos –, no O Globo, em 1959 – aí ficou por pouco tempo –, e na Última Hora.

Além do excepcional cronista Antônio Maria foi compositor, e teve como parceiros nomes famosos como Fernando Lobo, Luiz Bonfá, Vinícius de Moraes, entre outros – escreveu a letra de Manhã de Carnaval, uma das músicas mais executadas no exterior, e que seria um dos temas musicais do filme franco-ítalo-brasileiro, Orfeu Negro, ganhador da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar de melhor filme estrangeiro.

Dentre as 62 composições de Antônio Maria, merecem destaque, também: Menino grande. Ninguém me ama, Valsa de uma cidade, Canção da volta, O amor e a rosa, As suas mãos, Se eu morresse amanhã.  Sobre a composição Ninguém me ama houve injusta acusação de plágio por Fernando Lobo.

Na crônica que segue, intitulada Ninguém me ama I, na qual Antônio Maria aborda parte do problema criado por Fernando Lobo, pai de Edu Lobo (In Maria, Antônio. Crônicas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994, p. 24-25):


         [ESPAÇO DA CRÔNICA]


           NINGUÉM ME AMA I
                    [ ANTÔNIO MARIA ]


Sairá amanhã a Manchete que revela os verdadeiros autores do Ninguém me ama. Estou lendo as provas. Quanto ao depoimento do senhor Haroldo Barbosa, não direi nada ainda, pois espero seu desmentido e, ao menos, seu processo judicial contra a revista. O senhor Fernando Lobo jamais me decepcionou. Que feliz seria eu se todos os seus atos ignominiosos (contra mim) se restringisse a essas questões musicais. Mas o dito trabalha à base de ação ampla. Devo explicar, todavia, que os versos onde as palavras “de fracasso em fracasso” não são de Fernando. E é fácil de provar, porque a palavra “fracasso” está escrita corretamente, isto é com dois “ss”. Caso fosse verdade, uma colaboração sua, eu juro que respeitaria as cedilhas (çç) habituais.

Que espíritos pouco ambiciosos! Enquanto estão querendo ser Antônio Maria e ter feito o Ninguém me ama, eu gostaria de ter sido Exupéry e ter escrito o Pitit Pince. E no mais diz o nosso bom Antoine Exupéry. “As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: ‘Qual é o som da sua voz?’ Mas perguntam: ‘Qual é sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?’ Somente então é que elas julgam conhecê-lo”.
                                                                                              
                                                                                                                            17/4/1957



    *  *  *


27 de ago de 2013

LAURO RODRIGUES – Dois poemas



[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


LAURO RODRIGUES  (Lauro Pereira Rodrigues) nasceu no distrito de Santo Amaro do Sul, município de General Câmara, RS, em 1918 , e faleceu  em 17 de dezembro de 1978.

Lauro Rodrigues foi jornalista, radialista, poeta e político. Elegeu-se vereador pela cidade de Porto Alegre e deputado federal, por dois mandatos (1970 e 1978). Poeta foi membro da Estância da Poesia Crioula. Radialista apresentou em 1935 Campeiradas, na Rádio Sociedade Gaúcha, o primeiro programa de atrações regionalistas no Rio Grande do Sul.

Dando vasão ao sentimento que tinha pela poesia, Lauro Rodrigues escreveu: Invernada vazia, Ed. Coruja, 1944; Minuano, Ed. Livraria do Globo, 1944; A ronda dos sentimentos, Ed. Globo, 1944; Senzala Branca, Chirus, Ed. 3 Xirus, 1958; A canção das águas prisioneiras, Martins Livreiro, 1978.

 
Lauro Rodrigues escreveu, também: Aniversário da Revolução Farroupilha, Imprensa Nacional, 1972; Rio Grande do Sul Terra e Povo, A Evolução do Homem, Decadência da Dignidade.

Segue dois poemas de Lauro Rodrigues  (in Rodrigues, Lauro, A canção das águas prisioneiras. Porto Alegre: Martins Livreiro-Editor, 1978, p. 11-89):



[ESPAÇO DA POESIA]



DOIS POEMAS

[ LAURO RODRIGUES ]



I


Domaram o curso das águas!
Prenderam o rio na barragem!
Surge uma nova paisagem
na praia desfigurada...

Como um gigante a amurada
desafia a natureza!

Adeus, antiga beleza
dos salseiros, das areias,
dos clarões de lua cheia
que, agora, morrem na teia
dessa monstruosa cadeia
de ferro e cimento bruto.




II



Quero continuar andejo,
sem passado  e sem futuro!
Das minhas penas me curo
com outras penas, também...
Sempre medi a desgraça
que impera no campo alheio!
Bicheira é flor de rodeio,
pois Deus não poupa ninguém...

Quando chegar o final
hei de ficar por aí,
guardando um pouco de ti
como lembrança de velho!
A estrada é a escola da Vida
cujas lições sempre guardo,
pois a experiência é um fardo
que se reparte em conselho...




*  *  *


25 de ago de 2013

HEMINGWAY – Sua fala sobre Stein, Pound e Perkins




[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


HEMINGWAY (Ernest Miller Hemingway) nasceu em Oak Park, Illinois, EUA, em 21 de Julho 1899, e morreu em Ketchum, Idaho, aos 2 de Julho 1961. Foi casado quatro vezes, e teve muitos casos amorosos. Era um dos seis filhos do médico Clarence Edmonds Hemingway (membro fervoroso da Primeira Igreja Congregacional) e de Grace Hall (cantora do coro da igreja). Ernest Hemingway pôs termo à sua vida da mesma forma que o fizera Clarence, seu pai: suicídio.

Em entrevista que Hemingway concedeu a The Paris Review, o entrevistador quis saber qual a influência de algumas outras pessoas, contemporâneas dele, tiveram influência em sua obra; quis saber qual foi a influência de Gertrude Stein – se é que houve – a resposta foi negativa, acrescentando que “Miss Stein escreveu com certa prolixidade e considerável inexatidão a respeito de sua influencia sobre minha obra (...) Ela escrevia muito bem de outras maneiras”.   Sobre Ezra Pound, diz: “Quanto a Ezra, era extremamente inteligente quanto aos assuntos que realmente sabia”. E conclui: “Aqui, é mais simples e melhor agradecer a Gertrude Stein por tudo que aprendi com ela, reafirmar minha lealdade a Ezra Pound como um grande poeta e um amigo leal, e dizer que me interessava tanto por Max Perkins, que jamais consegui aceitar o fato de que ele morreu. Ele nunca me pediu que modificasse coisa alguma por mim escrita, exceto eliminar certas palavras que não eram então publicáveis, Os travessões eram mantidos, e quem quer que conhecesse tais palavras saberia quais eram elas. Para mim não era um redator-chefe. Era um amigo sensato e um companheiro maravilhoso.”



*

REFERÊNCIA:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 249-250.


*  *  *

19 de ago de 2013

[Conto] CYRO MARTINS – O Negro Jacinto




                        [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


CYRO MARTINS (1908 - 1995) enriqueceu sua prosa com a experiência que colheu na sua cidade natal, Quaraí, nas suas próprias vivências, desde muito cedo, antes de mudar-se para Porto Alegre. Esse conhecimento do homem do campo foi a base para a sua ficção. O escritor ainda pode contar com a sua vivência na área médica, em especial na psiquiatria e na psicanálise.

A soma desses dois fatores – esse conhecimento da vida campeira e essa experiência profissional com a psicanálise – facilitou-lhe a construção de personagens fortes e, por assim dizer, reais. Na sua ficção – romance e conto – temos essa constatação. E temos histórias contadas num texto enxuto, que não permite demasias de estilo.


O conto O Negro Jacinto, que segue, integra o livro de contos regionais Campo fora, estreia de Cyro Martins, em 1934, e que foi muito valorizado pelos críticos, pela abordagem social do escritor e pelo seu modo de narrar.  (In Martins, Cyro. Campo fora. 5ª ed. Porto Alegre: Editora Movimento, 1991, p. 61-62):


 [ESPAÇO DO CONTO]


O NEGRO JACINTO
  [ CYRO MARTINS]


Debaixo dum carretão velho de cabeçalho quebrado e rodado sem chapa, deitado, a cabeça descansando sobre as mãos em cruz, o Coleira revivia antigas lembranças. O olhar vesgo e gris, solto à toa no campo raso, era fugitivo, ambíguo, disperso como numa amarga meditação. Nunca andara assim, debalde, espichado no chão, vagabundo e sonolento. Nunca. Só agora que estava velho e caduco, que não prestava para mais nada, que vivia essa vida inútil de tédio e preguiça. Mas não gostava disso. Sempre preferiu a vida ágil e gaudéria que levava noutros tempos, quando era novo e tinha força. Todos o animavam então. E ele bem merecia, pois não havia campereada que não ajudasse.  Ia em qualquer volteada, corresse risco ou não, alegre, cabeça erguida, faro ativo, e o arco torcido para cima. Quantas vezes escapou por um triz de ficar enfiado nas guampas dos touros.

E agora tudo mudado. Decrépito, as juntas emperradas, de há muito sem aquela atitude arrogante de antigamente, judiado e debochado por todos. E que desconsolada sua melancolia de cachorro decadente, nas manhãs barulhentas de rodeio e sol, ao ver a cachorrada sair em grupo, embolada num novelo turbulento, pulando no estribo do patrão e ganindo excitada de alegria! Farejava o vento agreste, entesava as pernas magras, e arremetia leve como se mudasse  instantaneamente noutro, no que fora. E a poucos passos ficava exausto e vencido, parado, numa tremura. A custo sentava sobre as pernas traseiras, erguia bem alto a cabeça, e uivava longamente, angustiando com a sua lástima a ventura da manhã.

O galpão ficou só. Dia frio. E feias as campanhas, pardas de garoa. O choro do vento nos oitões e a zoada do arvoredo despilchado de inverno enchiam o vazio do sol e da vida. O Coleira se arrastou até a porta. Abriu os olhos cansados. Ninguém! Caminhou trôpego e ansioso para a beira do fogão, apressado por matar aquela saudade. Arrodeou os tições que ardiam quietos e se enroscou na cinza morna. Já lhe era quase estranho aquele calor. Também, há quanto tempo! Ninguém o queria mais ali, atulhando caminho, traste sem préstimo!

Lá fora caía neve. Mas na beira do fogão estava tão quente! Feliz, esquecido que tinha penado, foi adormecendo devagarinho. E sonhou. Foi um sonho cheio de aventuras e perigos do tempo desperdiçado de cachorro novo. Sonhou com as caçadas das noites de verão. Quanto bicho tirou da toca! E quantos outros correu campo fora até pegar! E logo o sonho mudou para um dia de solaço. Andava campereando com a peonada.

Numa trepada de coxilha, um lagarto verde e enorme, escarrapachado sobre a laje. Negaceou escondido entre os miolos, como pisando em espinhos, alevianado que andava.  Voou uma perdiz de dentro de uma moita, riscado linha direta no ar. Ele seguiu com raiva o voo trepidante que podia espantar a caça.  Mas logo o rufo silenciou. A perdiz se degolou na corda mais de cima do aramado. O gorgon ficou vibrando um assobio. O lagarto inchou de brabo. E ele pulou ágil na presa. Mas levou tamanho lepte nas costelas, que saiu quietinho, fino, para trás. Refeita a coragem, carregou com mais gana agora. A barriga lisa do lagarto amarelou para cima, e o novo guascaço doeu mais ainda. Encolheu-se e ganiu de dor.

Acordou. Uma gargalhada debochada e gaiata estrondou no galpão. Na frente dele, o negro Jacinto, beiçudo, olhos rasgados, chiripá de lona, com um relho trançado e grosso dependurado na mão monstruosa de tamanho, e a dentuça branqueando na bocarra escancarada.



*  *  *


11 de ago de 2013

BAUDELAIRE / Há Algo de Dante





        Há algo de Dante, de fato, no autor das Flores do Mal, mas é um Dante de uma época decaída, é um Dante ateu e moderno, um Dante vindo depois de Voltaire, num tempo que não terá São Tomás. O poetas dessas flores, que ulceram o seio em que repousam, e não é culpa dele, pertence a uma época conturbada, céptica, zombeteira, nervosa que se retorce nas ridículas esperanças das transformações e das mentepsicoses; não tem a fé do poeta católico que lhe dava a calma augusta da segurança em todas as dores da vida.


                                                                                (Théophile Gautier)


In Théophile Gautier,  Baudelarie, trad. de Mário Laranjeira. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001, p. 111.


                                                                   *  *  * 


29 de jul de 2013

[Conto] BARBOSA LESSA – Gadinho de osso



[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


BARBOSA LESSA – Luiz Carlos Barbosa Lessa – nasce a 13 de dezembro de 1929, em Piratini, RS. Na sua adolescência, muda-se para Porto Alegre, para cursar o 2º Grau. Mais tarde conhece Paixão Cortes, e o ajuda na ronda à Chama Crioula, e depois passa a colher assinaturas de jovens para fundar um centro tradicionalista. Dessa iniciativa, nasce o primeiro CTG (Centro de Tradições Gaúchas).

Muitos anos depois, Barbosa Lessa é convidado pelo governador Amaral de Souza para integrar a Secretaria da Cultura. Então passa a estudar a criação de centro de saber acadêmico. E em março de 1983, pode inaugurar a Casa da Cultura, que mais tarde teria por patrono poeta gaúcho Mario Quintana.

Barbosa Lessa dedica-se à pesquisa da História do Sul. Depois, passa esses conhecimentos para a ficção (romance e conto), para a crônica, para a poesia e para o ensaio. Escreve, entre outras obras: Rodeio dos ventos, Histórias para sorrir e Os guaxos, com o qual recebe o Prêmio da Academia Brasileira de Letras, em 1959.

O escritor volta deixar a capital, desta vez para residir, com a esposa Nilza, na reserva Água Grande, no município de Camaquã, não muito distante de Porto Alegre, onde falece, a 11 de março de 2002, aos 73 anos  de idade.
 

Segue Gadinho de osso, conto de Barbosa Lessa (in, Lessa, Barbosa. Histórias para sorrir. Porto Alegre: Alcance, 1999, p. 41-42):



[ESPAÇO DO CONTO]


GADINHO DE OSSO
[ BARBOSA LESSA ]


Aquilo, sim, que era estância! Não havia, em toda a volta, outra tão linda. Campo de pura Flexilha. Aramado caprichado, com mourões de pauzinhos e os fios feitos de barbante. E tinha até banheiro para se banhar o gado, embora fosse tão só um buraco que a gente enchia de água para ali atirar o boi e tirar-lhe o carrapato. Eu brincava horas a fio. Só o que tinha que evitar, com muito jeito, é que a porca ali chegasse, com a fileira de leitão; se visse vinha escangalhando tudo, botava o aramado abaixo, só eu sei a trabalheira em refazer tudo, depois.

Quando pra os grandes era dia de carneada, pra mim e o meu primo era dia de tropeada. Daquele ossinho comprido, que parece ter as patas e duas pontas de aspas, a gente tirava as vacas. Chicossuelo era touro. Das patas, vinha a cavalhada. E, do espinhaço, as ovelhas.

A lida do trivial era repontar boiada duma invernada pra outra. Em dia de banhação a caneca do barril não tinha folga: nem bem se botava a água, já a terra seca chupava, dê-lhe água novamente. Mas o brabo mesmo era o solaço de verão, nos dias de marcação, com a gente atirando laço, correndo de lá pra cá, aplastado de suor. Mas aí chegava a Leila – a priminha sempre amiga – servindo mate pra mim...

Recordo que um dia peleei feio com um domador novo nas casas, o Cesário, porque me roubou o melhor touro e com ele foi jogar jogo-de-osso no galpão. Parei patrulha! Berrei até que o Cesário teve que me devolver. Mas, naquele dia, morreu a barrosa velha no piquete das tambeiras, foi ele quem foi courear, na hora lembrou de mim, voltou com oito cavalos de presente pra minha estância, fiz as pazes, se abracemo.

Naquela estância – única estância que tive, mas que acompanha minha vida – passei as horas mais lindas do meu tempo de piá.

E hoje, quando me vejo embretado em cidade grande e tão longe da querência, há ocasiões em que acordo ouvindo os gritos campeiros de outrora. É festa de marcação!

– Abre a porteira, Cesário, que venho trazendo os boizitos da Invernada da Saudade!

– Me ceva um mate, priminha, que a sede está me tonteando!

– E aviva o fogo! E esquenta a marca! Já está vermelha? Então...

... Tchhhhhh!

A marca do Rio Grande marcou a fogo minha tropa da saudade.




*  *  *



19 de jul de 2013

[Crônica] GARCIA MÁRQUEZ – A última anedota de G.B.S.


  
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Bem antes de receber o galardão do Prêmio Nobel de Literatura com a sua magistral obra, Cem anos de solidão, de ter publicado outras tantas obras como O amor nos tempos do cólera, Crônica de uma morte anunciada, Funerais de mamãe grande, Ninguém escreve ao coronel, O sequestro, O outono do patriarcaA incrível história de Cândida Erêndira, , e, a mais recente, Memória de minhas putas tristes, entre outras, Gabriel Garcia Marques escreveu, bem antes da fama e do Nobel, artigos para o jornal colombiano El Universal, quando tinha apenas 20 anos; escreveu também para o jornal El Universal, onde exerceu o cargo de redator.

Os seus artigos, escritos no período de 1948 a 1952, foram reunidos nos 2 volumes do livro Textos do Caribe, publicados no Brasil pela Editora Record, com compilação de Jacques Gilard e tradução de Joel Silveira. Do seu segundo volume transcrevo a sua crônica, escrita para homenagear George Bernard Shaw, no dia em que faleceu o célebre escritor inglês, como segue ((In Textos do Caribe/Gabriel Garcia Marques, tradução de Joel Silveira, Rio de Janeiro: Record, 1981. v. 2, p. 31):



 [ESPAÇO DA CRÔNICA]


 A ÚLTIMA ANEDOTA DE G.B.S.
     [ GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ ]


Mr. George Bernard Shaw – sempre tão oportuno! – escolheu para morrer o2 de novembro, que sem dúvida é o dia mais apropriado para se levar a cabo essa incômoda diligência. Morrer num dia 15 de março, por exemplo, equivale a que ninguém a lembrar-se de qualquer um de nós passadas três gerações. Morrer no dia de finados, ao contrário, é completa garantia de perpetuidade na memória dos sobreviventes, inclusive sem necessidade de ter feito as coisas excepcionais que fez Mr. Bernard Shaw antes de dar esse mau passo que o converteu num dos mais gloriosos hóspedes do subsolo. Poucas semanas antes, o mundo havia temido a ocorrência desse acontecimento, mesmo que Mr. Shaw tivesse tomado precauções para que se acreditasse no contrário e que o fatal tropeço que sofrera em seu jardim de Ayot St. Lawrence fosse apenas um motivo para acrescentar um par de muletas a seus múltiplos e merecidos títulos literários.

Depois de haver despachado suas enfermeiras e haver feito umas quantas pilhagens à custa de sua própria bacia fraturada, ainda se deu ao luxo de fazer de sua morte uma surpresa e não, como poderia ter sido há algumas semanas, o resultado lógico de um passo em falso.

Noventa e sei anos de legumes vão para o outro mundo, transformados por elementos que construíram um dos homens mais importantes deste século. Jamais um repolho foi matéria-prima de tanta valia, nem um punhado de rabanetes melhor combustível para manter ativo esse carburante de barba branca e calças bufantes que hoje será conduzido ao cemitério, depois de há 50 anos vir zombando da paciência das senhoras e dos antropólogos.

A morte de Mr. Shaw é algo demasiado sério para que seja tomada em seu sentido literal. Deve-se simplesmente acreditar que ele entrou em férias, depois de haver cumprido uma das jornadas mais extraordinárias na literatura de todos os tempos. O resto, o fato de que o amortalhem e o guardem num ataúde hermético, o emparedem e lhe levem rosas, pode ser apenas uma maneira original de passar as férias, para exemplo de todos os mortos comuns.

Um homem como Mr. Shaw é bem capaz de na próxima semana aparecer no jardim de sua casa, como sempre com seu sorrisinho de velho malicioso, contente de ter mais uma vez brincado com a humanidade. O gênio, teimosamente carregado, pode inclusive servir para isso.




*  *  *


17 de jul de 2013

[Jazz] LOUIS ARMSTRONG - O filho de New Orleans

Louis Armistrong



                   [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


        A obra integral gravada por Louis Armstrog sob seu nome, entre novembro de 1925 e abril de 1932, está registrada em quatro álbuns indispensáveis para lhe conhecer a grandeza. O primeiro disco da série agrupa dezesseis interpretações desse primeiro Hot Five, um com o delicioso exercício de virtuosismo que é Cornet shop suey, e com Heebie jeebie que constitui a primeira peça onde se ouve Armstrong cantar, e o segundo é dominado por Skid-dat-de-dat, onde, após um solo de formosa nobreza, um vocal scat traz uma seqüência divertida, cheia de imprevistos.

       Em seu Hot Five de 1925-1926, nota-se imediatamente o triunfo da personalidade sobre a coletividade e antes de tudo a marca de Armstrong, que ultrapassa todos os seus parceiros tanto por seu excepcional senso rítmico, de uma facilidade e flexibilidade absolutas, quanto pelo equilíbrio de seus desenvolvimentos e a emoção que canaliza sempre o seu discurso. A maior parte das execuções não vale senão por ele, como Sunset café ou Big Butter and Eggman.


                                                                                 (André Francis)

Ref. FRANCIS, André. Jazz. Trad. de Antonio de Padua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1987, p.42.

                                                                *  *  *

13 de jul de 2013

[Poesia] ARMINDO TREVISAN – Graciliano Ramos vende sua sombra ao sol


[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


ARMINDO TREVISAN nasceu em Santa Maria (RS), em 1933. Professor universitário, poeta, ensaísta, tradutor e conferencista, doutorou-se em Filosofia pela Universidade de Fribourg, Suíça, com curso de aperfeiçoamento em Paris. Escreve a mais de quarenta anos.  Por sua poesia tornou-se referência não apenas entre os gaúchos, mas também em todo o país. Num concurso de poesia em que foi premiado, os seus jurados foram: Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cassiano Ricardo.

Trevisan escreveu, entre outros, os seguintes livros: A surpresa de ser, com o qual obteve o Prêmio Nacional de Poesia Gonçalves Dias, da União Brasileira de Escritores, em 1964;  A imploração do nada, 1971; O abajur de Píndaro, 1972;  Corpo a corpo, em coautoria com Carlos Nejar, em 1973; Funilaria no ar, 1973; A fabricação do real, 1975; Em pele e osso, 1977; O ferreiro harmonioso, 1978; O rumor do sangue, 1979; A mesa do silêncio, 1982; O moinho de Deus, 1985; A dança do Fogo, 1988; Os olhos da noite, 1997; O canto das criaturas, 1998; Mario, coautoria com Tabajara Ruas; Orações para o novo milênio, 2000; Serpente na grama, 2001.

Segue Graciliano Ramos vende sua sombra ao sol, poema de Armindo Trevisan (in Trevisan, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Editora Movimento em convênio com o Instituto Nacional do Livro / Ministério da Educação e Cultura, 1973, p. 93-94):


[ESPAÇO DA POESIA]


GRACILIANO RAMOS VENDE SUA SOMBRA AO SOL
[ ARMINDO TREVISAN ]




Graciliano,
animal triste
silêncio ensurdecido
entre o olho
e a caatinga.

Pão e laranja
para os místicos.
Para ti,
o cisco.
Graciliano,
pai,
anti-pai.


Ismália enlouqueceu
quando morreste.
E tu, intratável,
seduziste
uma a uma
as santas de Deus.

Graciliano,
arranjador
de verdade:
pisa, mais uma vez
o coração,
o vosso e o meu.

Onde ele se acoitar,
tua cachorra
estique  a pata
do braço.

E assim,
anti-pai,
seja feita na terra
a tua vontade.



*  *  *


6 de jul de 2013

[Crônica] LUIS FERNANDO VERISSIMO – Retrato falado




[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


LUIS FERNANDO VERISSIMO, nasceu em Porto Alegre, em 1936. No ano de 1969 o jornal Zero Hora começa a publicar as suas crônicas. Nesse mesmo ano começou a trabalhar para a MPM Propaganda, como redator de publicidade. Mais tarde suas crônicas são publicadas nos jornais O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e Zero Hora.

Publicou algumas dezenas de livros: O popular (J.Olympio, 1973), Ed Mort e outras histórias (L&PM, 1979), O analista de Bagé (L&PM, 1980), A velhinha de Taubaté (L&PM, 1983), Aventuras da Família Brasil (quadrinhos, L&PM, 1985), O marido do doutor Pompeu (L&PM, 1987), O suicida e o computador (L&PM, 1992), Comédias da vida privada (L&PM, 1994), Américas (Artes e Ofícios, 1994), entre outros.

Segue Retrato falado, de Luis Fernando Verissimo (in Verissimo, Luis Fernando. Amor brasileiro. 5ª ed. Porto Alegre: L&PM, 1986, p. 45-47):


[ESPAÇO DA CRÔNICA]


 RETRATO FALADO
    [ LUIS FERNANDO VERISSIMO ]


UMA DAS COISAS que eu não entendo é retrato falado. Em filme musical americano o retrato falado sai sempre a cara do criminoso, até o último cravo. Mas na vida real, que nada tem de filme americano, o retrato falado nunca tem o menor parentesco com a cara do cara sendo preso.

– Atenção. Aqui está o retrato falado do homem que estamos procurando. Foi feito de acordo com a descrição das dezessete testemunhas do crime. Decorem bem a sua fisionomia. Está decorada?

– Sim senhor.

– Então procurem exatamente o contrário deste retrato. Não podemos errar.

Imagino os problemas que não deve ter o artista encarregado dos retratos falados na polícia. Um homem sensível, obrigado a conviver  com a imprecisão de testemunhas e as rudezas da lei.

– O senhor mandou me chamar, Inspetor?

– Mandei, Lúcio. É sobre o seu trabalho. Os seus últimos retratos falados...

– Eu sei, eu sei. Mas é que eu estou numa fase de transição, entende? Deixei o hiper-realismo e estou experimentando com uma volta a formas orgânicas e...

– Eu compreendo, Lúcio. Mas da última vez que usamos um retrato falado seu para pegar alguém, a turma prendeu um orelhão.

O pior deve ser as testemunhas que não sabem descrever o que viram.

– O nariz era assim, um pouco, mais ou menor como o seu, Inspetor.

– E as sobrancelhas? As sobrancelhas são importantes.

– Sobrancelhas? Não sei... como as suas, Inspetor.

– E os olhos.

– Os olhos claros. Como os...

– Já sei. Como os meus. O queixo?

– Parecido com o seu.

– Inspetor, onde é que o senhor estava na noite do crime?

– Cala a boca e desenha, Lúcio.

E há os indecisos.

– Era chinês.

– Tem certeza?

– Bom, ou era chinês ou tinha dormido mal.

E deve haver a testemunha literária.

– Nariz adunco, como de uma ave de rapina. A testa escondida pelos cabelos em desalinho. Pelos seus olhos, vez que outra, passava uma sombra como uma má lembrança. A boca era de uma sensualidade agressiva mas ao mesmo tempo tímida, algo reticente nos cantos, com uma certa arrogância no lábio superior que o lábio inferior refutava e o queixo desmentia. Narinas vividas, como as de um velho cavalo. E isso que eu só o vi por dois segundos.

Os sucintos.

– Era o Charles Bronson com o nariz da Maria Alcina.

– Tipo Austregésilo de Athayde, mas com bigode mexicano.

– Uma mistura de cachorro Boxer, comandante da Varig e beque do Madureira.

– Bota aí: a testa do Remy Gorga Filho, o nariz do Giscard D’Estaing, a boca do porteiro do antigo Fred’s e o queixo de Virginia Woolf. Uma orelha da Jaqueline Onassis e a outra, estranhamente, do neto do Getty.

– A Emilinha Borba de barba  depois de uma mau voo na Ponte Aérea com o Nelson Ned.

E há as surpresas.

– Bom, era um cara comum. Sei lá... Nariz reto, boca de tamanho médio, não tinha bigode... Ah, e um olho só, bem no meio da testa!

O Ciclope ataca outra vez.

Experimente você dar as características para o retrato falado de alguém.

– Os olhos da Sandra Bréa. Isso. Um pouco menos sobrancelha. O nariz da Clare Bloom. De 15 anos atrás. A boca da Cláudia Cardinalle. O queixo da Elizabeth Savala. Um seio da Laura Antonelli e outro da Sydne Rome. As pernas da Jane Fonda.

– Feito. Mas quem é essa?

– Não sei. Mas se a encontrarem, tragam-na para mim, depressa. E viva!



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2 de jul de 2013

[Conto] ERIC NEPOMUCENO – Quarta-feira



[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


ERIC NEPOMUCENO – jornalista, escritor e tradutor – nasceu em 1948. Começou a trabalhar como jornalista em 1966. De 1969 a 1976, integrou a equipe do Jornal da Tarde, de São Paulo, onde foi repórter, redator, enviado especial a vários países da América Latina. Viajou por dezesseis países latino-americanos. Colaborou com diversas publicações da Argentina, México e Venezuela. Entre elas, o jornal La opinión, de Buenos Aires (1973 a 1975), o jornal Excelsior, do México (1974), o jornal El Nacional, de Caracas (1974 a 1975) e a agência de notícias Latin (1974 a 1975). Foi colaborador permanente da revista Crisis, de Buenos Aires (1973 a 1976).

Em 1976 foi correspondente pela revista semanal Veja e a partir de setembro de 1976 foi enviado a Espanha. Durante esse período, publicou artigos, reportagens e entrevistas na Holanda, Itália, Espanha, Israel, França, Estados Unidos e Irlanda. Colaborou na revista Triunfo, de Madrid, e escreveu artigos para revistas do México, Portugal, Brasil, e para o jornal britânico The Guardian. Trabalhou na Rede Globo como editor e foi cronista do "Caderno B", do Jornal do Brasil.

Nepomuceno traduziu ao português vários autores contemporâneos, gigantes da literatura hispânica, como Gabriel García Márquez, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano, Juan Rulfo, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e outros. Inclusive, seus três primeiros livros foram publicados em espanhol.

Ganhou duas vezes o prêmio Jabuti pela tradução de autores de língua espanhola, além de vários outros prêmios com seus livros de contos e de não-ficção. Escreveu roteiros em co-produção com a TV Espanhola e produtoras da Holanda e Inglaterra. Foi autor do texto final do documentário: “Vinícius”, de Miguel Faria Jr. Atualmente, escreve artigos e reportagens no Brasil, Espanha, México e Uruguai e em jornais como: El País, de Madrid, e Página 12, de Buenos Aires. Lançado em 2007 o livro O Massacre, sobre a tragédia de Eldorado dos Carajás, lhe rendeu o segundo lugar na categoria livro reportagem no Jabuti 2008. [Verbete publicado em 7 de abril de 2010 por: Gilles Jean Abes e Andréa Cesco]

Segue Quarta-feira, conto de Eric Nepomuce (in Nepomuceno, Eric. A mulher do professor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1996, p. 61-64):



[ESPAÇO DO CONTO]


QUARTA-FEIRA
   [ ERIC NEPOMUCENO ]



Naquele agosto, o dia 16 caiu numa quarta-feira. E naquela quarta-feira chegou ao Paraguai uma senhora argentina de idade não divulgada, que durante décadas foi professora de gramática em escolas públicas: dona Zulema de Milkis.

Ela foi imediatamente levada à cidadezinha de Ypacaraí, numa viagem de automóvel que consumiu pouco menos de uma hora. Lá viu o lago de Ypacaraí, que – a exemplo do rio Danúbio – tornou-se conhecido por uma inexistente cor azul. De bom mesmo, em Ypacaraí, só um ou outro pôr-do-sol.

A professora Zulema de Milkis escreveu, quarenta e tantos anos antes daquela quarta-feira, os versos de uma canção que divulgou o tal lago pelo mundo afora: Uma noche tíbia nos conocimos/junto al lago azul de Ypacaraí, e por aí seguiu. Os versos da canção, confidencia-se no Paraguai, refletem um amor proibido entre a então jovem professora  e um músico paraguaio, casado e não tão jovem, chamado Demétrio Ortiz. É ele o autor da melodia.

Versos e melodia, enfim, deixam testemunho desse amor, que certamente foi recordado pela professora Zulema de Milkis ao ver o lago. Ortiz morreu muitos anos antes daquela quarta-feira, mas viveu o suficiente para ver a canção tornar-se conhecida em todo o mundo. Viu também que qualquer visitante que chega ao Paraguai é recebido pela canção, espécie de hino nacional inevitável: há centenas de gravações diferentes, e os paraguaios tocam uma delas assim que enxergam um estrangeiro pela frente.

Ao chegar a Ypacaraí, a aposentada professora Zulema de Milkis certamente mergulhou – não no lago, mas nos desvãos da memória.

A cidadezinha continua, até hoje, meio sem graça. Seus moradores já se acostumaram aos comentários dos visitantes: pois é, o lago não é azul, pois é, a paisagem não é assim tão romântica; pois é, as noites não são tão tíbias; pois é, estranho que um amor tenha aflorado logo ali. Pois é.

O que pouca gente sabe, mesmo na cidade, é dizer quem é esta senhora chamada Zulema de Milkis. E muito menos que antes daquela quarta-feira, 16 de agosto de 1995, ela nunca havia estado no Paraguai e que Ypacaraí foi descrita – com lago e tudo – numa dessas exemplares mentiras de amor. Cada um vê o que vê, cada um vê o que quer – ensinou Molière há séculos. A professora seguiu a lição, talvez sem saber do mestre involuntário.

Seus versos são resultado dos amores imperfeitos de uma professora do interior que, até aquela quarta-feira, só soube do lago pelas mentiras de amor. Desse enredo, porém, salta uma constatação luminosa: além de mover o sol e as estrelas, o amor cria águas, retoca cenários, inventa paisagens, compõe versos que mudam lagos na memória coletiva de gerações.

E sempre virá alguém disposto a inventar, sobre o já inventado, tudo de novo. Assim, lá vem chegando, com seu baú de lembranças, uma certa professora argentina, de idade não divulgada e que aliás não interessa a ninguém, chamada Zulema de Milkis.

Ela chega ao lago onde naufragaram seus amores proibidos e impossíveis, chega às águas que inventou, e que por isso mesmo existirão para sempre.


   
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REFERÊNCIA: