20/06/2012

[Poesia] ALPHONSUS DE GUIMARAENS – Canção




               por  Pedro Luso de Carvalho


        ALPHONSUS DE GUIMARAENS era o pseudômino usado por  Afonso da Costa Guimarães, nascido em Ouro Preto, Minas Gerais, a 24 de julho de 1870. Passou a maior parte de sua vida em  Mariana, nesse Estado, onde exerceu o cargo de Juiz, onde realizou sua obra e onde morreu, a 15 de julho de 1921.

        Na cidade de Mariana o poeta tinha uma vida discreta, que lhe dava o sossêgo necessário para elaborar sua obra poética. A sua existência apagada, sem fortuna pessoal ou literária, no entanto, levou-o ao isolamento, condição não apropriada para dar conhecimento aos meios literários  do que produzia. Daí ter sua poesia obtido a glória somente depois de sua morte.

        Alphonsus de Guimaraens foi,  ao lado de Cruz e Souza, o maior dos poetas simbolistas do nosso país. A sua contribuição ao Simbolismo, na época uma nova escola, foi a inspiração mística. Sobre o poeta, escreveu o grande crítico José Veríssimo: “Pela sua compostura, pela seriedade de sua vida, pela sinceridade de sua inspiração, pelas qualidades da sua arte, distingue-se desses rapazes, espirituosos e inteligentes alguns, outros sem nenhuma destas qualidades, para quem a arte é um divertimento frívolo, uma postura da Rua do Ouvidor, um meio de ter nome nas folhas e de se dar ares de gênio incompreendido”.

        Livros escritos por  Alphonsus de Guimaraens: Sentenário das Dores de Nossa Senhora e Câmara Ardente, Rio de Janeiro, 1899; Dona Mística, Rio de Janeiro, 1899; Kiriale, Pôrto, 1902; Mendigos, Ouro Preto, 1920; Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte, São Paulo, 1923 – entre outros. O Ministério da Educação publicou o volume Poesias, de Alphonsus Guimaraens, cuja edição foi dirigida e revista por Manuel Bandeira (Rio de Janeiro, 1938).

        Segue o poema, de Alphonsus de Guimaraens, Canção (In Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Hollanda. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil, vol. II. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 340-341):


                                 [ESPAÇO DA POESIA]

                                       C A N Ç Ã O
                                         (A.  de  Guimaraens)



                    Quando chegaste, os violoncelos
                    Que andam no ar cantaram hinos,
                    Estrelaram-se todos os castelos,
                    E até nas nuvens repicam sinos.


                    Foram-se as brancas horas sem rumo
                    Tanto sonhadas! Ainda, ainda
                    Hoje os meus pobres versos perfumo
                    Com os beijos santos da tua vinda.


                    Quando te foste, estalaram cordas
                    Nos violoncelos e nas harpas...
                    E anjos dissseram: - Não mais acordas,
                    Lírio nascido nas escarpas!


                    Sinos dobraram no céu e escuto
                    Dobres eternos na minha ermida.
                    E os pobres versos ainda hoje enluto
                    Com os beijos santos da despedida.




                                                     (Poesias, Rio de Janeiro, 1938, p. 191.)


                                                            *  *  *