10 de dez de 2016

[Crônica] ANTÔNIO MARIA – Ninguém me ama I

  
-  PEDRO LUSO DE CARVALHO

ANTÔNIO MARIA (Antônio Maria Araújo de Morais) nasceu em Recife a 17 de março de 1921. Maria, como era tratado pelos íntimos, escrevia crônicas diárias no O Jornal – onde permaneceu por 15 anos –, no O Globo, em 1959 – aí ficou por pouco tempo –, e na Última Hora.

Além do excepcional cronista Antônio Maria foi compositor, e teve como parceiros nomes famosos como Fernando Lobo, Luiz Bonfá, Vinícius de Moraes, entre outros – escreveu a letra de Manhã de Carnaval, uma das músicas mais executadas no exterior, e que seria um dos temas musicais do filme franco-ítalo-brasileiro, Orfeu Negro, ganhador da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar de melhor filme estrangeiro.

Dentre as 62 composições de Antônio Maria, merecem destaque, também: Menino grande. Ninguém me ama, Valsa de uma cidade, Canção da volta, O amor e a rosa, As suas mãos, Se eu morresse amanhã.  Sobre a composição Ninguém me ama houve injusta acusação de plágio por Fernando Lobo.

Na crônica que segue, intitulada Ninguém me ama I, na qual Antônio Maria aborda parte do problema criado por Fernando Lobo, pai de Edu Lobo (In Maria, Antônio. Crônicas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994, p. 24-25):


         [ESPAÇO DA CRÔNICA]


           NINGUÉM ME AMA I
                    [ ANTÔNIO MARIA ]


Sairá amanhã a Manchete que revela os verdadeiros autores do Ninguém me ama. Estou lendo as provas. Quanto ao depoimento do senhor Haroldo Barbosa, não direi nada ainda, pois espero seu desmentido e, ao menos, seu processo judicial contra a revista. O senhor Fernando Lobo jamais me decepcionou. Que feliz seria eu se todos os seus atos ignominiosos (contra mim) se restringisse a essas questões musicais. Mas o dito trabalha à base de ação ampla. Devo explicar, todavia, que os versos onde as palavras “de fracasso em fracasso” não são de Fernando. E é fácil de provar, porque a palavra “fracasso” está escrita corretamente, isto é com dois “ss”. Caso fosse verdade, uma colaboração sua, eu juro que respeitaria as cedilhas (çç) habituais.

Que espíritos pouco ambiciosos! Enquanto estão querendo ser Antônio Maria e ter feito o Ninguém me ama, eu gostaria de ter sido Exupéry e ter escrito o Pitit Pince. E no mais diz o nosso bom Antoine Exupéry. “As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: ‘Qual é o som da sua voz?’ Mas perguntam: ‘Qual é sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?’ Somente então é que elas julgam conhecê-lo”.
                                                                                              
                                                                                                                            17/4/1957



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