26 de abr de 2013

[Conto] CYRO MARTINS – Guri


[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


CYRO MARTINS (Cyro dos Santos Martins) nasceu em Quaraí a 05 de agosto de 1908, e faleceu a 15 de dezembro de 1995, em Porto Alegre. Em 1933, formou-se em medicina. Escolheu como especialidade médica a psiquiatria e a psicanálise. Um ano após a sua formatura, passou a dividir a medicina com a literatura.  

Em 1934 estreou na literatura com o livro de contos "Campo Fora", com a temática gauchesca. Na 5ª edição dessa obra, publicada em 1991 pela Editora Movimento, coube ao culto ensaísta Guilhermino Cesar fazer sua apresentação, da qual extraímos o trecho que segue:

 "Cyro Martins, em sua estreia em 1934, com os contos regionais de Campo fora, trouxe ao gênero uma perspectiva social que todos os críticos têm valorizado; e sob este ângulo é que, no futuro, será ainda lembrado, quando todas as modas de hoje estiverem esquecidas. Mas a meu ver, há nele um traço que o singulariza entre seus companheiros, tão importante, afinal, como sua temática: o modo de narrar”.
 
Principais obras de Cyro Martins: (contos) Campo fora, 1934;  A entrevista, 1968;  Rodeio, 1976;  A dama do saladeiro, 1980; (novelas) Um menino vai para o colégio, 1942; Um sorriso para o destino; (romances) Sem rumo; 1937; Enquanto as águas correm, 1939; Porteira fechada, 1944; Estrada nova, 1954; Sombras na correnteza, 1979; O príncipe da vila, 1982; Gaúchos no obelisco, 1984; Na curva do arco-íris, 1985; O professor, 1988.
       
Segue o conto Guri, de Cyro Martins (In Campo fora/Cyro Martins. 5ª ed. Porto Alegre: Editora Movimento, 1991, p. 30-31):


[ESPAÇO DO CONTO]


        GURI
(Cyro Martins)



– Pstiu, caalo!

O pingo, bagual novo, se parara arpista com o rebuliço, instigando o ginete para uma escaramuça. Espantado, fogoso, cabeça erguida, trocando orelha, olhando longe, era um urso de grande o pangaré de Nilo.

– Cuidado, rapaz, que esse animal é velhaco.

– Não deixei as pernas em casa.

O guri, de ouvir, já sabia responder.

E não cansava de pular proezas, agachado no cavalo de sarandi, com uma tira de pano, que era a cola, quebrada em cacho de três galhos bem em cima, onde canta o galo e os cuscos não alcançam.

– Volta, volta, boi!

Batendo as aspas pontudas no atropelo da disparada xucra, a novilhada estralava os cascos duros num estrondo, como chuva de pedra, no chapadão raso como uma tábua.

Gritaria. Agachadas. Guascaços puxados. Sofrenaços. Esbarradas compridas assinalando no chão a marca da sua violência. Tiros de laço, largados com maestria uns, e outros guampeando as macegas normais. Rodadas feias. Silvos de boleadeiras pelo ar. E cavalos correndo soltos com arreios.

Um lote grande se cortou rumando o aramado. Na ponta, embora bem montado, o Ricardo, solito, não podia sujeitá-lo.

E se aproximavam ligeiro da cerca, que estava bem de pé, estirada, e era toda de madeirama nova.

A chapada, de resvaladia, era um sabão.

E a manhã, claríssima, tonteava de tanta luz.

Do oitão do rancho, montado no seu cavalinho de pau, o Nilo entusiasmado, contente, batendo os pezitos no chão, que o pingo fogoso não parava quieto, não tirava os olhos do grande cenário.

Nunca vira aquilo. E estava gostando de ver. Tinha lástima de não ser homem ainda para andar lá também, e correr e se arriscar.

Num vá, a cerca deitou. Assobiaram fios de arame arrebentados, e voaram lascas de pau, cravando longe no chão como estacas.

Tropeiro, cavalo e boiada uniram-se num bolo só.

E daí um pedação, apareceram com o Ricardo de arrasto num couro, sangrando.

Quebrara-se no golpe. Mas não gemia, procurando disfarçar a dor. O guri recolheu, na esperteza campeira dos olhitos alarifes, toda a viva emoção daquele instante supremo na vida do gaúcho.

Todos estavam calados. Ele também. Não indagava nada. Olhava normais.

O índio pediu um cigarro. Tragou uma pitada, e morreu.

Esse dia o guri não brincou.

Dias depois encontraram o Nilo, deitado embaixo do mesmo umbu, bem espichado, com um cigarro apertado entre os dentes, fingindo-se de morto.

Faz de conta que numa tropeada braba levara uma virada mui feia.

Perto, branqueando ao sol, a sua tropa. Ossada limpa!

A cerca de um fio único de barbante, suspenso antes na ponta de dois pauzinhos finos, toda caída no chão.

Ao lado do aramado, morto, o bagual pangaré.




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