29 de mar de 2013

[Crônica] LUIS FERNANDO VERISSIMO – A comadre



                [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Luis Fernando Veríssimo, um dos escritores brasileiros mais importantes, nasceu em Porto Alegre, em 1936. No ano de 1969 o jornal Zero Hora, começa a publicar as suas crônicas. Nesse mesmo ano começou a trabalhar para a MPM Propaganda, como redator de publicidade. Mais tarde suas crônicas são publicadas nos jornais O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e Zero Hora.

Publicou algumas dezenas de livros: O popular (J.Olympio, 1973), Ed Mort e outras histórias (L&PM, 1979), O analista de Bagé (L&PM, 1980), A velhinha de Taubaté (L&PM, 1983), Aventuras da Família Brasil (quadrinhos, L&PM, 1985), O marido do doutor Pompeu  (L&PM, 1987), O suicida e o computador (L&PM, 1992), Comédias da vida privada (L&PM, 1994),  Américas (Artes e Ofícios, 1994), entre outros.

L. F. Veríssimo foi homenageado com o Prêmio Scopus pela Sociedade Brasileira de Amigos da Universidade Hebraica de Jerusalém, em novembro de 2011, em evento no Buffet França, em São Paulo. A honraria foi entregue ao escritor por Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras.

Segue o conto A comadre, de Luis Fernando Veríssimo (In O marido do doutor Pompeu/Luis Fernando Verissimo. 2ª ed. Porto Alegre: L&PM, 1987, p. 119-120):


[ESPAÇO DA CRÔNICA]


A COMADRE
( LUIS FERNANDO VERISSIMO )



O veraneio terminou mal. A ideia dos dois casais amigos, amigos de muitos anos, de alugarem uma casa juntos deu errado. Tudo por culpa do comentário que o Itaborá fez ao ver Mirna, a comadre Mirna, de biquíni fio dental pela primeira vez. Nem tinha sido um comentário. Mas um som indefinido.

– Omnahnmon!

Aquilo pegara mal. A própria Mirna sorria sem jeito. O compadre Adélio fechara a cara, mas decidira deixar passar. Afinal era o primeiro dia dos quatro na praia, criar um caso naquela hora estragaria tudo. Eram amigos demais para que um simples deslize – o som fora involuntário, isto era claro – acabasse com tudo. E, ainda por cima, a casa já estava paga por um mês.

Naquela noite, no quarto, a Isamar pediu satisfação ao marido.

– Pô, Itaborá. Qual é?

– Não pude controlar, puxa.

– Na cara do Adélio!

– Eu sei. Foi chato. Mas saiu. Que eu posso fazer?

– Nós conhecemos a Mirna e o Adélio há o quê? Quase dez anos.

– Mas eu nunca tinha visto a bunda da Mirna.

– Ora, Itá!

– Não entende? A gente pode conviver com uma pessoa dez, vinte anos, e ainda se surpreender com ela. A bunda de Mirna me surpreendeu, é isso. Me pegou desprevenido.

– Vai dizer que você nunca nem imaginou como era?

– Nunca. Juro. Nem me passou pela cabeça. E de repente estava ali, toda. Toda ali.

– Pois vê se te controla.

Pelo resto do veraneio o Itaborá fez questão de nem olhar para o fio dental da comadre. Quando os quatro iam para a praia, se apressava para caminhar na frente. Se por acaso as nádegas da comadre passassem pelo seu campo de visão, olhava para o alto, tapava o rosto com o jornal, assobiava.

Um dia, o Itaborá e o Adélio sentados no quintal, a Mirna recém-servira a caipirinha, de biquíni, e se dirigia de volta para casa, e o Itaborá suspirou.

– O que foi – perguntou o Adélio, agressivo.

– Essa política econômica – disse o Itaborá. – Sei não. Não levo fé.

– Ah – disse o Adélio.

Até o fim do veraneio ficou aquela coisa chata entre os quatro. O Itaborá não podia tossir que todos o olhavam, desconfiados.



*  *  *



6 comentários:

Tais Luso disse...

kkkkk, essa crônica eu não conhecia! Pô, coitado do Itaborá, mas também, né... pra lá e pra cá e o cara não pode olhar!!
Grande Verissimo!

beijinhos!

Pedro Luso disse...

Esse é o nosso grande Luis Fernando Verissimo!
Uma pergunta, Taisinha: conheces algum brasileiro (ou estrangeiro) com esse talento?

Beijinhos.

Bicho do Mato disse...

Oi amigo, tudo bem? Sou o Marcos, administrador do Blog do Bicho do Mato e venho, através deste comentário, lhe convidar para o Primeiro Concurso de Poesias, "Pena de Ouro" do Blog do Bicho do Mato, que será realizado de 20 a 30 de abril de 2013. Ficarei muito honrado com sua participação que será muito importante para o êxito deste evento.

Para ler o regulamento, clique neste LINK. Conto com sua presença.

Grato pela atenção.

Grande abraço do amigo Marcos. Até mais.

Pedro Luso disse...

Caro Marcos,

Vou pensar na possibilidade de participar do Primeiro Concurso de Poesias, "Pena de Ouro" do Blog do Bicho do Mato.

Obrigado pelo convite.
Um abraço.

Ana Sophie disse...

adorei

Pedro Luso disse...

Obrigado, Ana Sophie.
Volte mais vezes.
Abraços.